01 fevereiro 2013

Mãe Poeta

Nasceste a 20, o acaso registou como teu o dia 27 mas fevereiro será, eternamente, o teu mês! O mês que acolhe o dia que transforma os anos em anos bissextos, anos de que nunca gostaste... anos de que eu passei a não gostar... Mivone Linda!




01 dezembro 2012

Noémia

"Poor children eating at the Day Care Nursery while their mothers work", Portugal, 1940, by Bernard Hoffman in http://images.google.com/hosted/life/b5fc3f4f38e2113b.html

Chamava-se Noémia,
Nove anos de idade
Cheios de maturidade.

Vivia do outro lado
Da minha rua,
Do meu mundo
Mas a casa de paredes nuas
Tinha um encanto profundo.

Era para mim um espanto
Vê-la subir para um banco
Para chegar à panela
E fazer nela
Com rapidez e perfeição
Uma sopa de feijão
Que distribuía por seis tigelas
Uma para mim, outra para ela
Quatro para os irmãos.

No ano primeiro
Da nossa amizade
Tinha eu sete anos de idade
Por alturas do Natal
Andava num alvoroço
Apanhando musgo no quintal
Nos muros, à roda do poço
Para enfeitar o presépio
No largo parapeito
Da janela de granito
Tendo por fundo
O céu, o infinito.

O presépio com a estrela
Tão grande e tão bela
A cabana pobrezinha
Onde o Menino despido
Apenas era aquecido
Pelo bafo dos animais
Como se não tivesse pais
Para O aquecer
Para O proteger.

Quis que a Noémia O visse
E a sua prenda pedisse.

Com um sorriso triste
Respondeu, conformada:
- Na casa dos pobres
O Menino Jesus não deixa nada.

Não sei descrever o que senti
Mas qualquer coisa se quebrou
Dentro de mim
Se estilhaçou
No meu peito de criança
Numa angústia, numa desconfiança.

Não fomos à Missa do Galo
Pois nevara fortemente.
Mas antes de abrirmos os presentes,
O meu Pai pegou no Menino
Deu-O a beijar a toda a gente.

Tinha lágrimas nos olhos
Mas a voz não tremia
Quando meu Pai fitei
Para, firme, declarar:
— Estou zangada com Ele,
Não O quero beijar.

O meu Pai não me ralhou
E o Menino Jesus
Nas palhinhas deitou.

Mas quis saber a razão
Por que estava tão zangada
Com o Menino Jesus
Fonte de toda a esperança
Todo amor, todo bondade
Tão amigo das crianças.

- Não é nada — afirmei
Segura da minha verdade —.
A Noémia não faz maldades
Não tem tempo para brincar
Passa os dias a trabalhar
Nem sequer pode estudar.
E porque são pobrezinhos
O Menino Jesus
Nada deixa nos sapatinhos.

Foi nessa noite linda
Que o meu Pai me explicou
Com uma ternura infinda
Que este Natal de presentes
De vaidades e consumismo
Não é o Natal de Jesus.
Dele são a paz e a luz.
Dos homens, o materialismo.

Mas como nesse Natal
A Noémia afinal
Teve uma boneca
E houve presentes
Para toda a gente
Na casa do outro lado
Da minha rua
Dei por mim a perguntar:
— Foi por eu me zangar?

Este Natal estou triste
Triste e até desesperada
Com tudo quanto vejo
E não desejo.
O que irá acontecer
Se ao Menino disser
Que estou muito zangada?


Quem sabe se vai surgir
Um milénio de amor
Um mundo novo
Com crianças a sorrir.


Talvez nunca mais veja
Crianças carbonizadas
Em barracas desumanizadas.


Talvez nunca mais veja
Crianças abandonadas
Nos vãos das escadas
Nos passeios das ruas
Tendo por coberta a lua
Jornais velhos e cartão
Tratadas abaixo de cão
(Metáfora já sem valor
Pois o novo significado
De uma vida abjecta
Vai ser vida de criança
Onde não mora o amor
Sem lugar para a esperança).

Talvez nunca mais veja
Os meninos desta Terra
Na droga
Na prostituição
Cheios de fome
De carinho e de pão.
Pequenos Meninos Jesus
Que vão ser espancados
Cuspidos
Escarnecidos
Que vão ser outros Cristos
— não santificados —
Que vão ser crucificados
Por culpa dos nossos pecados.


Se a minha zanga
Para alguma coisa prestar
Se puder quebrar
Esta inércia em que vivemos
Este egoísmo que temos
A pena hipócrita que sentimos
— apenas e só —
Quando as imagens vemos.


Se o meu grito
Eco encontrar
E se multiplicar
Num clamor
Talvez ele possa chegar
Ao coração dos homens
E despertar o amor.

Ai, meu Menino Jesus
Pequeno raio de luz
Não sou a criança inocente
Que Contigo se zangou
Mas sinto-me impotente
Não sei a quem me queixar.
A quem hei-de implorar
Que as Noémias deste mundo
Tenham pão, um lar
E bonecas para brincar?


Ai, meu Menino Jesus
Meu doce raio de luz
Tão pobre
Tão despido
Tão desvalido:
 — Estou zangada Contigo!

 
Maria Ivone Vairinho

01 novembro 2012

Serra da Estrela

Fotografia de Hélio Cristovão em http://www.heliocristovao.net/blog

Meu corpo foi talhado em granito
Meus pés plantados em ribeiros
Que me banham o corpo inteiro.

Nos olhos tenho espaço infinito
Que rasga a linha do horizonte
Que se perde no mar, nos montes.

No meu véu branco de esponsais
Brotam zimbro, mimosas, tojais.
No verde selvagem dos pinheirais
Meu manto de rainha foi tecido
Com urzes e rosmaninho entretecido.

Meu vestido verde bordado
Com rubra barra de papoilas
Espigas doiradas
De trigo e cevada
Desce pelas encostas escarpadas.

No ventre fecundo
Guardo mananciais
De lava ardente e minerais
Que mostram seu esplendor
Nos picos das Penhas Douradas
Quando o sol enamorado
Em manhãs de ouro matizadas
Crepúsculos avermelhados
Me confessa o seu amor.

Prendem-se minhas mãos nas fráguas
Delas jorram cristalinas águas.

Águas de lava arrefecida
Fontes de saúde e vida
Irrompendo em borbotões
Tecendo rendas delicadas
P'las quebradas dos Covões.

Derretem neves do Inverno
E loucas vão mergulhar
No Poço que é do Inferno.
A água das neves, gelada
É de novo transformada
Pela lava incandescente
Rasga a terra com fragor
Entre nuvens de vapor
Nas termas e nas nascentes.

Sou feita de neve e de granito
Nos olhos tenho espaço infinito
Do verde selvagem dos pinheirais
No ventre fecundo mananciais
De lava ardente e geladas águas
Que jorram cantando pelas fráguas.

Maria Ivone Vairinho
(Livro do amor e da saudade)

02 outubro 2012

Abraça-me apenas...


Covilhã, Capela de São João de Malta, 02 de outubro de 1961


ABRAÇA-ME APENAS
(Para meu Marido)

Abraça-me apenas
Com toda a ternura
Que teus braços sejam
Cadeia segura.


Deixa que assim
Deste meu jeito
A minha cabeça
Repouse no teu peito.


Aqui estou protegida
Deixemos lá fora a vida
Com seus ódios e rancor.
Tudo é paz, serenidade
Águas mansas, tranquilidade
Abraça-me apenas, meu amor.

Maria Ivone Vairinho

01 setembro 2012

A clara luz do dia...

António Lobo Antunes
1 de setembro de 1942
(http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=302)


Vou ter de viver os próximos tempos em condições muito duras que não dependem de mim. Ser uma testemunha passiva do que se passa comigo, nada poder fazer para alterar seja o que for, desespera-me. Quando as coisas dependem da minha vontade eu luto. Quando não dependem fico reduzido a um espectador inútil, sofrendo o que se passa sem poder intervir, e a minha indignação e a minha angústia crescem. Aguenta-te. Mas é difícil aguentar passivamente. Noites sobressaltadas, despertares cansados, a raiva da injustiça. Vou arranjando forças para continuar a escrever mas esta pequena coisa dentro de mim tenta destruir-me a energia. Sempre aceitei mal o que vem de fora da minha vontade, sempre aceitei mal o que me é imposto autoritariamente, sem discussão nem razões. Aceito, até certo ponto, a incerteza do futuro, não aceito que essa incerteza não me consinta uma margem de liberdade. A minha obra não está completa, a minha vida não está completa, necessito de tempo ainda, dessa espécie de tumultuosa paz de que sou feito. E sinto-me sozinho nisto, com as pessoas que me são próximas a assistirem de fora, impotentes. Navego à deriva, porque me tiraram o leme. A minha existência é comezinha e sem importância: na minha opinião o meu trabalho não o é. Se me devolvessem a paz e a esperança em troca dos livros que escrevi não a aceitava. Orgulho-me deles, custaram-me a alma. Que silêncio nesta casa, em frente da minha dor, cuja presença me espanta. Não me faço perguntas nem encontro respostas. Devo esperar. E quando se acabar, a espera? Palavras, coisas, pessoas rodopiam-me em torno, grandes pássaros negros passam sobre mim, o meu corpo é um conjunto de articulações sem sentido. Os outros, os que me falam, seres quase sem nexo, separados de mim por um muro que não consigo transpor. Porém não oiço o que quero nem digo o que se me arrasta no fundo da alma. Fico num silêncio amargo, cheio de gritos mudos, zanga, insultos. Dentro em pouco os dados estarão lançados: e depois?
A minha principal sensação é de estranheza, de espanto. O mundo, à minha volta, alterou-se, e eu com ele. Hoje, por exemplo, está um dia de sol, e é apenas chuva que vejo. Muitos dos meus amigos morreram já, e dou-me conta, na carne, da falta que me fazem. Ernesto, Zé, Acácio, vários outros. Sinto o coração a bater, compassado, lento. Por enquanto acompanha-me, estamos juntos. Não quero aborrecer ninguém, tomar o tempo de ninguém, ser incómodo. As horas adquiriram, sem me dar conta, uma rapidez vertiginosa. Há pouco o meu primo Zé Maria desapareceu com a mais admirável das coragens. Receio não a ter. A minha cobardia assusta-me. A indiferença dos estranhos assusta-me. A mudez do telefone assusta-me. Ninguém me garante que isto é mentira e sinto-me cercado de vazio, um oco interno onde fervem pavores. Sou eu o que continua, ou o que desconheço o que seja no meu lugar? Tudo o que sei é que, dentro em pouco estarei de novo no bojo de uma máquina sem alma, terrivelmente objectiva. A máquina dirá às pessoas, as pessoas dir-me-ão a mim. E quem é o mim que as vai ouvir?
Para já oiço o monótono zumbido do mundo. Mais nada. E espero. É tremendo esperar sem conhecer a resposta, sem fazer a mínima ideia da resposta. Passei por isso em África, passei por isso há anos. Julgava ter terminado. Voltou.
E o que digo o que interessa às pessoas? O que pode interessar aos outros? A solidão cerca-me por todos os lados, não há uma fraçãozinha que se sinta acompanhada: podem estar por fora, a olhar. Não estão por dentro, a viver. Escrevo este texto como quem tenta não se afogar, sabendo que se afogará seja como for. É uma questão de tempo e o tempo é cruel.
- Cá me vou entretendo com as minhas mazelas
dizia-me um homem outro dia. E que impartilhável sofrimento no interior destas palavras. Depois apertámos a mão e foi-se embora, levando as mazelas com ele. Poderei ir-me embora também? O Sol cresceu, tudo está cheio de luz. Que absurdo isto que me sucede no meio de tanta luz. Lembro-me de Van Gogh a morrer num quarto de hospital depois dos tiros. Na parede aquele quadro dos corvos num campo de trigo. A enfermeira perguntou-lhe o que significava o quadro.
- É a morte
disse ele. A enfermeira voltou a olhar para a tela. Comentou
- Não parece uma morte triste
e o pintor respondeu
- E não é. Passa-se à clara luz do dia.
Que, ao menos, quando chegar o meu momento, tudo se passe à clara luz do dia. Comigo a ver, pela janela, as nuvens lá fora, deslizando, uma a uma, para leste. E eu, deitado numa cama qualquer, a partir com elas.
 
(António Lobo Antunes, Visão, 8 de março de 2012, http://visao.sapo.pt/a-clara-luz-do-dia=f651213) 

01 agosto 2012

Sheldon Mirowitz




 Sheldon Mirowitz at Berklee College of Music
(
http://www.berklee.edu/faculty/detail/sheldon-mirowitz)
Sheldon Mirowitz biography:
http://www.sheldonmirowitz.com/bio.htm
Sheldon Mirowitz's credits: http://www.sheldonmirowitz.com/credits.htm

 

The Nazi Officer's Wife, 2003

(documentary directed by Liz Garbus; original music by Sheldon Mirowitz), based on "The Nazi Officer's Wife - How One Jewish Woman Survived the Holocaust", 1999 by Edith H. Beer (
http://www.harpercollins.com/books/Nazi-Officers-Wife-Edith-H-Beer/?isbn=9780688177768), see trailer: http://www.videodetective.com/movies/the-nazi-officers-wife/227256
  

 


Piano Solos, 1992
(August 23, 1962 composed by Sheldon Mirowitz)

http://www.allmusic.com/album/piano-solos-mw0000089037


01 junho 2012

Os Lusíadas

 
(Camões lendo ´Os Lusíadas´ a D. Sebastião, imagem em http://1.bp.blogspot.com/-VO-na5drngA/TwdX9ZBiaXI/AAAAAAAAAow/bAKPfrJVzt4/s1600/camoes.jpg)


"As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(…)
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de til gente.
(…)
E não sei por que influxo de Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
Olhai que ledos vão, por várias vias,
Quais rompentes liões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolátras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a pexes, ao profundo.
Por vos servir, a tudo aparelhados;
De vós tão longe, sempre obedientes;
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar reposta, prontos e contentes.
Só com saber que são de vós olhados,
Demónios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido
Que vencedor vos façam, não vencido.
Favorecei-os logo, e alegrai-os
Com a presença e leda humanidade;
De rigorosas leis desalivai-os,
Que assi se abre o caminho à santidade.
Os mais exprimentados levantai-os,
Se, com a experiência, têm bondade
Pera vosso conselho, pois que sabem
O como, o quando, e onde as cousas cabem.
Todos favorecei em seus ofícios,
Segundo têm das vidas o talento;
Tenham Religiosos exercícios
De rogarem, por vosso regimento,
Com jejuns, disciplina, pelos vícios
Comuns; toda ambição terão por vento,
Que o bom Religioso verdadeiro
Glória vã não pretende nem dinheiro.
Os Cavaleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrépido e fervente
Estendem não sòmente a Lei de cima,
Mas inda vosso Império preminente.
Pois aqueles que a tão remoto clima
Vos vão servir, com passo diligente,
Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só d'exprimentados
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe.
Mais em particular o experto sabe. 
(…)
Luis Vaz de Camões, 1572, ´Os Lusíadas´ (ver versão original em http://purl.pt/1/2/cam-3-p_PDF/cam-3-p_PDF_24-C-R0150/cam-3-p_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf)


01 abril 2012

Um poema, em Abril, com aroma a Mátria

Alfredo Keil (http://centenariorepublica.pt/escolas/personalidade-republica/alfredo-keil), "No cais do Tejo" (1881) (http://sopintura1953.blogspot.pt/2011/01/alfredo-keil.html)


Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.
Natália Correia (http://tv0.rtp.pt/gdesport/?article=95&visual=3&topic=1), Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 1999 ("Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", 1971)

01 março 2012

Columbano

Auto-retrato, sem data, óleo sobre tela, Museu do Chiado, Lisboa, Portugal (in http://www.ci.uc.pt/artes/6spp/columbano.html)









































"Columbano Augusto Bordalo Pinheiro estudou pintura na Academia de Belas-Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Lupi e Simões de Almeida. Essencialmente retratista e pintor de interiores, com ocasionais abordagens paisagistas, estreou-se em 1874 no Salão da Sociedade Promotora de Belas-Artes com obras de género eivadas de algum romantismo. Em 1881 partiu para Paris, onde esteve como bolseiro até 1883, tomando contacto com o movimento naturalista. Regressado a Portugal, integra-se, juntamente com o seu irmão, o escultor e desenhista satírico Rafael Bordalo Pinheiro, no Grupo do Leão que retrata em 1885. Professor da Escola de Belas-Artes de Lisboa desde 1901, renunciou ao cargo em 1924 por não entender o emergente movimento modernista. Foi então director do Museu de Arte Contemporânea, onde está representado com numerosas obras que retratam uma intelectualidade de fim-de-século, através de uma sociedade decadente. Denunciando um gosto antiquizante na sua demarcação do naturalismo e não aceitação dos vanguardismos, a sua Obra assume um lugar único na pintura portuguesa de finais do século XIX e inícios do século XX." (in http://app.parlamento.pt/visita/visita_virtual/portugues/fichas/ficha_113.html)




Os seus painéis emolduram a Sala dos Passos Perdidos do Parlamento de Portugal: http://app.parlamento.pt/visita/visita_virtual/portugues/index.html ou http://app.parlamento.pt/visita/visita_virtual/portugues/fichas/ficha_215.html



Uma escolha
Sarau, 1880 in http://aarteemportugal.blogspot.com/2010/07/columbano-bordalo-pinheiro-1857-1929.html